Definição
De acordo com Jenny Hodgson e Anna Pond (2018), a filantropia comunitária é “uma força voltada para o desenvolvimento de recursos, talentos, capacidades e confiança locais. É uma forma de transferir poder para mais perto da base, para que as populações e atores locais tenham maior controle de seu próprio destino.” A filantropia comunitária é baseada na premissa de que todas as comunidades têm seus recursos e ativos (dinheiro, habilidades, conhecimento, redes etc.) que não apenas lhes dão poder e voz, mas a capacidade de participar de forma ativa e protagonista dos processos de tomada de decisão sobre os rumos do seu próprio desenvolvimento.
Origens e evolução
Existem muitas definições e diversos trabalhos desenvolvidos voltados para analisar o conceito de filantropia comunitária, mas levando em conta que trata-se de uma visão diferenciada sobre o desenvolvimento socialmente justo e sustentável, essa abordagem, implicou uma nova forma de entender e fazer filantropia.
A essência da filantropia comunitária se baseia no princípio de que o desenvolvimento deve ser responsabilidade da população local ao invés de ser imposto por atores de fora e de “cima para baixo”. Na perspectiva da filantropia comunitária, o poder de decisão e de ação são responsabilidade das comunidades e dos atores que atuam nos territórios, dada a sua capacidade de conhecer as realidades locais e buscar soluções próprias para os problemas que enfrentam, de promover processos de transformação e de construção do bem comum.
Um marco importante no contexto histórico da filantropia comunitária foi o movimento Shift The Power (Transferir o poder), que foi “o grito de guerra” do evento Global Summit on Community Philanthropy, realizado nos dias 1 e 2 de dezembro de 2016 em Joanesburgo, África do Sul, que reuniu cerca de 400 pessoas de mais de 60 países. Nesse cenário, a filantropia comunitária se instala como um novo paradigma, colocando a temática do poder como um aspecto nevrálgico das relações e conexões e, ao mesmo tempo, propõe uma mudança de visão sobre as práticas filantrópicas.
Entendido como uma força mobilizadora, o movimento está voltado para a promoção de novas formas de “decidir e agir” guiadas pelo entendimento de que a sociedade civil e as comunidades desempenham um papel essencial na construção de uma sociedade mais justa e democrática. Concebido como uma força capaz de promover uma mudança genuína, o movimento foi ganhando força e solidez ao longo da sua trajetória já que, em 2019, foi lançado um Manifesto pela Transformação e, em dezembro de 2023, teve lugar uma nova conferência na cidade de Bogotá que reuniu cerca de 730 pessoas de mais de 70 países.
O movimento Shift The Power provocou o surgimento de narrativas comunicacionais inovadoras, de novas agendas e formas de fazer e entender a filantropia, reconhecendo a existência de diferentes formas de organização comunitária para a mobilização de recursos, mas também na articulação de atores para a busca de soluções a problemas locais.
Certamente, a filantropia comunitária está no cerne desse movimento e, ao advogar por uma transição de um sistema “baseado e organizado em torno da transferência de fundos”, propõe uma visão social e política que “reconheça, respeite e valorize os recursos e ativos locais, em vez de ignorá-los, prejudicá-los ou substituí-los” (Hodgson e Kwesiga, 2025).
Contexto e relevância
No ano de 2022, a Rede Comuá promoveu um processo de aprofundamento de visões junto a organizações do investimento social privado (ISP) e da filantropia de justiça socioambiental sobre desafios e oportunidades para o fomento da filantropia comunitária, destacando-as como um caminho possível e transformador. Os debates e reflexões surgidas no contexto dessa iniciativa resultou na publicação Filantropia Comunitária No Brasil: Princípios, Práticas e Experiências, lançada no ano de 2024, que apresenta experiências desenvolvidas pelas organizações membro da Rede Comuá, atores estratégicos nesse campo de atuação.
Partindo do pressuposto de que não há uma fórmula única para fazer filantropia comunitária, mas sim práticas adotadas a partir da construção conjunta com organizações, coletivos e movimentos da sociedade civil, em parceria, de acordo com as reais necessidades dos territórios, buscou-se sistematizar os princípios que orientam as práticas, apresentadas a seguir:
- Reconhecimento e valorização dos ativos das organizações apoiadas;
- Reconhecimento da autonomia das organizações apoiadas na concepção e definição dos rumos do projeto e de sua gestão;
- Desenvolvimento de ações voltadas ao fortalecimento de lideranças locais e comunitárias;
- Investimento através de doações (financeira ou não-financeira) no fortalecimento institucional das organizações apoiadas;
- Priorização de temas e públicos associados a grupos historicamente minorizados e com histórico de violação de direitos;
- Adoção de processos e mecanismos que facilitem o acesso amplo a recursos e a prestação de contas por parte de organizações apoiadas;
- Promoção da diversidade e da participação de representantes das organizações apoiadas em processos/instâncias de decisão.
A partir da observação e análise das tendências do campo, é possível afirmar que a filantropia comunitária é uma conceito em disputa, principalmente no contexto do ecossistema da filantropia tradicional. Embora a filantropia comunitária priorize o protagonismo local, o campo vem enfrentando tensões levando em conta que diversas organizações da filantropia mainstream – tanto fundações internacionais como nacionais – vem investindo de forma expressiva na criação de fundos comunitários. Injetar grandes volumes de recursos em comunidades e grupos com pouca trajetória no campo da filantropia, expertise em gestão e em grantmaking é um mecanismo que envolve riscos consideráveis, pois requer uma gestão complexa junto aos movimentos e comunidades. Além disso, o problema também radica na sustentabilidade financeira desses fundos criados “de cima para baixo” porque, na maioria das vezes, a filantropia faz um aporte inicial de recursos (fundos sementes), mas não investe no longo prazo, o que coloca em risco a continuidade de sua atuação. Ao impor agendas e modalidades de gestão, a filantropia tradicional acaba não reconhecendo as dinâmicas e culturas locais existentes, situação que pode derivar na desmobilização e desarticulação da sociedade civil, dos movimentos e, consequentemente, pode resultar no esvaziamento das suas agendas de luta.
Debates, disputas e perspectivas
Apesar de que a noção contemporânea de filantropia comunitária tenha sido instalada no Brasil no limiar do século XXI, é fundamental reconhecer a ancestralidade das práticas e ações nesse campo. Certamente, as experiências das irmandades e das comunidades quilombolas e indígenas são significativas e relevantes para entender a filantropia de justiça social comunitária no Brasil.
As Irmandades Negras – que arrecadavam recursos através de diversas ações para comprar alforria de pessoas escravizadas – e os Quilombos podem ser, talvez, os maiores exemplos de resistência, empoderamento e de apoio financeiro às populações negras no Brasil, já que colocaram as comunidades afro-descendentes como protagonistas para decidir sobre as formas de organização social e definição do seu próprio destino. Por sua vez, o conceito indígena Motirõ (mutirão) que é uma prática ancestral de filantropia comunitária, aponta para a colaboração das comunidades para alcançar objetivos e ações comuns.
No contexto atual, a filantropia comunitária no Brasil, começou a ganhar fôlego com a criação de fundações comunitárias, movimento que foi fortemente influenciado e alavancado por organizações internacionais, e embora por muitos anos elas foram reconhecidas como as instituições de referência, hoje é possível reconhecer a presença de diversos tipos de organizações – fundos temáticos, comunitários, territoriais, etc. – formas de fazer filantropia que muitas vezes estão fora do radar do financiamento e das grandes fundações.
A publicação Expandindo e fortalecendo a filantropia comunitária no Brasil – desenvolvida pela Rede Comuá em 2018 e publicada em 2021- trouxe um primeiro diagnóstico do contexto brasileiro. Partindo do pressuposto de que a filantropia comunitária deve ser entendida como um campo em permanente construção, como forma de atuação na realidade social sem a imposição de soluções “de cima para baixo”, mas a partir do desenvolvimento de iniciativas e articulações com diversos atores e dinâmicas. O estudo acima ressalta a tese de que não existe uma definição unívoca sobre a filantropia comunitária já que, por se tratar de uma conceito material, construído com base em práticas reais, ele é mutante ao adquirir características específicas de acordo com cada contexto social.
No Brasil, existe uma diversidade de atores que atuam no campo da filantropia comunitária, como fundações comunitárias (que não necessariamente se enquadram no modelo americano), fundos temáticos e comunitários. Buscando superar a definição do conceito de forma abstrata, a noção da “tropicalização” é uma tentativa de reconhecer as características e dinâmicas no cenário brasileiro como elementos constitutivos a partir do reconhecimento da diversidade de experiências, que inclusive, muitas delas, dialogam com práticas vinculadas à economia solidária. Fundos rotativos e comunitários, bancos comunitários, microcrédito, negócios sociais etc. — ligadas à economia solidária — são iniciativas diversificadas, que procuram gerar e alavancar recursos para garantir a sustentabilidade financeira de organizações comunitárias e levar à frente suas ações voltadas para o desenvolvimento das comunidades de atuação.
A decolonialidadeA decolonialidade admite que existe uma imposição dos saberes europeus brancos e masculinos em detrimentos dos saberes da população negra e diásporas, mulheres, povos originários, entre outras minorias políticas. também é um conceito chave para pensar o campo da filantropia comunitária no Brasil já que ao reconhecer a ancestralidade das experiências advindas das comunidades indígenas e afro-brasileiras e ao dar voz às periferias, às margens, e às minorias políticas. Reconhecendo a sua relevância e protagonismo nos processos de luta e transformação, a noção de decolonialidade busca romper com as estruturas e os legados da colonização, recuperando os saberes ancestrais apagados e desvalorizados pela opressão epistemologia opressora da colonialidadePara um aprofundamento sobre a temática da filantropia decolonial consultar ANDRADE e SILVA, Allyne; HOPSTEIN, Graciela. A descolonização da filantropia está avançando? São Paulo: Rede Comuá, 10 nov. 2022. Disponível em: https://redecomua.org.br/a-descolonizacao-da-filantropia-esta-avancando/..
Exemplos de aplicação prática
Casos brasileiros ilustram essa dinâmica operando nos territórios. A Tabôa – Fortalecimento Comunitário, na Bahia, exemplifica o modelo ao criar o Fundo de Desenvolvimento Comunitário “Engaja Serra”, que democratiza o acesso a recursos e fortalece associações locais a partir de demandas mapeadas pela própria comunidade. Outro exemplo é o Fundo de Impacto para Justiça Social, do Instituto Comunitário Grande Florianópolis (ICOM), que mobiliza recursos do seu território para apoiar grupos ligados ao combate ao racismo, à violência doméstica e a direitos de imigrantes, entre outros temas, oferecendo recursos de uso livre atrelados a um plano de acompanhamento técnico desenvolvido em parceria com as organizações apoiadas.
Por sua vez, o Programa Saberes da Rede Comuá têm expandido perspectivas sobre o que é filantropia comunitária, ampliando o debate junto a vozes que a praticam diariamente. Pesquisadores do Programa destacam, por exemplo, as origens das ações comunitárias de mobilização de recursos, que devem ser entendidas a partir das práticas ancestrais de partilha e reciprocidade. Além disso, conectam a filantropia comunitária com a ótica da solidariedade — entendida não como caridade, mas como um método concreto e um pacto político contínuo, profundamente conectado com a história dos movimentos sociais brasileiros e com a luta coletiva.
Materiais para aprofundamento
- [Repositório] Hub Transforma, da Rede Comuá. Disponível em: https://redecomua.org.br/hub-transforma-publicacoes/
- [Livro] Expandindo e Fortalecendo a Filantropia Comunitária no Brasil” (2021). Disponível em: https://redecomua.org.br/wp-content/uploads/2023/03/Expandindo-e-fortalecendo-a-filantropia-comunitaria-no-Brasil-1.pdf
- [Relatório] “Filantropia Comunitária no Brasil” (2024). Disponível em: https://redecomua.org.br/wp-content/uploads/2025/02/Filantropia-comunitaria-no-Brasil_Final.pdf
- [Vídeo] A resposta é local – Como a filantropia comunitária transfere poder e muda o mundo. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=gUo7SZQUvDk
- [Manifesto] Manifesto pela Transformação, do movimento #ShiftThePower. Disponível em: https://shiftthepower.org/more-than-a-hashtag/manifesto-for-change/.e-than-a-hashtag/manifesto-for-change/
