ago 2026

Da intenção à capacidade: colaboração intersetorial, filantropia e investimento social privado

Tema para o qual as leituras contribuem: 

Colaboração intersetorial, filantropia e investimento social privado.

Comentário sobre as leituras:

A colaboração tornou-se quase incontornável no vocabulário da filantropia e do investimento social privado. Diante de problemas públicos cada vez mais complexos, parece haver certo consenso de que Estado, empresas e organizações da sociedade civil dificilmente produzirão, isoladamente, as respostas necessárias. O desafio começa justamente depois desse consenso, ou seja, como colaborar, afinal?

O artigo de John Bryson, Barbara Crosby e Melissa Stone é uma referência importante para enfrentar essa pergunta. Os autores organizam e colocam em diálogo diferentes frameworks teóricos dedicados às colaborações intersetoriais, aproximando elementos como condições antecedentes, governança, liderança, confiança, relações de poder, processos, estruturas, accountability e resultados. Sua contribuição permanece particularmente atual porque ajuda a retirar a colaboração do campo das boas intenções. Colaborar exige desenho, capacidades e escolhas institucionais, e envolve tensões que não desaparecem simplesmente porque os atores compartilham determinado propósito.

A segunda leitura chega ao mesmo debate por outro caminho. “Anna Peliano: uma batalha incansável contra a fome, a pobreza e a desigualdade social”, organizado por Fernando Rezende, reúne parte importante da produção técnico-científica e dos ensaios de Anna e, ao fazê-lo, preserva também a memória de décadas de construção das políticas sociais brasileiras.

Minha relação com esse livro é também pessoal. Anna foi minha mestra e tive a oportunidade de trabalhar ao seu lado durante quatro edições da pesquisa BISC. Talvez por isso, ao ler o livro, me interessem tanto os detalhes. Para além das políticas e dos resultados alcançados, estão registradas ali experiências, escolhas, dificuldades, acertos e aprendizados sobre como fazer diferentes atores trabalharem juntos. A experiência permite observar, em perspectiva histórica e situada no Brasil, muitos dos desafios que a literatura sobre colaboração procura sistematizar conceitualmente.

Lidos em conjunto, os dois trabalhos fazem um movimento de aproximar teoria e memória, que considero especialmente necessário para o campo. Um nos oferece linguagem e categorias para compreender a colaboração; o outro permite reconhecer o conhecimento acumulado em experiências brasileiras que já enfrentaram, na prática, o desafio de construí-la. Em um campo que fala tanto em articulação e parcerias, talvez seja igualmente importante perguntar quanto temos aprendido com quem já tentou fazê-las funcionar.

Leituras indicadas:

BRYSON, John M.; CROSBY, Barbara C.; STONE, Melissa Middleton. Designing and implementing cross‐sector collaborations: Needed and challenging. Public Administration Review, v. 75, n. 5, p. 647-663, 2015. Disponível em: https://pdfs.semanticscholar.org/f2ad/36a4bed8902b6d3def0de3a2109455d37ff8.pdf

Anna Peliano: uma batalha incansável contra a fome, a pobreza e a desigualdade social. Organizado por Fernando Rezende. Brasília: IPEA, 2022. Disponível em: https://repositorio.ipea.gov.br/entities/book/f2d2eb6e-e7ad-4b78-8b0c-17eb7b4c6051