set 2026

Filantropia negra: reconhecimento, recursos e poder de decisão

Leituras indicadas:

ASSIS, Marianna Silva; SILVA, Iracema Souza. Diagnóstico acerca de filantropia e raça no Brasil: do centro das lutas às margens dos recursos. In: Anais do Congresso Brasileiro de Sociologia, 2025, São Paulo. Sociedade Brasileira de Sociologia, 2025. Disponível em: https://l1nq.com/SDj30j1. Acesso em: 28 set. 2026.

PINEDA, Andréa M. Desafios, avanços e perspectivas rumo a uma filantropia brasileira decolonial. Entrevista concedida ao GIFE. GIFE, 7 out. 2024. Disponível em: https://gife.org.br/desafios-avancos-e-perspectivas-rumo-a-uma-filantropia-brasileira-decolonial/. Acesso em: 28 set. 2026.

Tema para o qual as leituras contribuem:

As leituras contribuem para o debate sobre filantropia negra no Brasil, com foco nas desigualdades de acesso a recursos e nas relações de poder que atravessam as práticas e os processos decisórios do campo filantrópico. 

Comentário sobre as leituras:

Lidas em conjunto, as duas leituras mostram que o problema não é a ausência de filantropia negra, mas a distância entre ela e os recursos. Essa distância não é acidental. É produzida por critérios de elegibilidade, por modelos de avaliação e por quem ocupa a mesa de decisão. Daí a atualidade da pergunta que Pineda deixa em aberto, sobre quem entre os grupos historicamente privilegiados está disposto a ceder espaço.

Para quem atua no investimento social privado, a provocação é direta. Reconhecer a filantropia negra como tradição e potência já não basta. A questão agora é que mudanças de prática, de governança e de alocação estamos dispostos a fazer para que ela deixe de existir à margem dos recursos que ajuda a justificar.

À primeira vista, os textos falam de lugares diferentes.

O primeiro é o artigo de Marianna Silva Assis e Iracema Souza Silva, construído sobre o diagnóstico que o Fundo Agbara fez de organizações negras. Os números pesam: mais da metade dessas organizações não tem CNPJ, capta pouco e quase não aparece nos dados públicos. Mas o que me interessa no texto é outra coisa. As autoras tratam essas organizações como agentes que produzem conhecimento e cuidado, e não como público a ser atendido. Com isso, a pergunta muda de lugar. Deixa de ser o que falta a essas organizações e passa a ser o que falta ao campo para enxergá-las.

O segundo é uma entrevista curta de Andréa Pineda ao GIFE, que me acompanha desde que a li. Pineda descreve a colonialidade na filantropia em três camadas: quem a instituição consegue ver, como decide medir resultado e quem ela deixa decidir sobre o recurso. Ela não fala de raça. Mas, depois dessa entrevista, fica difícil ler o diagnóstico do Agbara sem reconhecer, em cada dado, uma dessas camadas em funcionamento.

Fica interessante colocar os dois textos lado a lado justamente porque vêm de lugares distintos, um da sociologia dos movimentos sociais, o outro de dentro do debate do investimento social privado, e chegam ao mesmo ponto sem terem combinado o caminho.